Adaptação na Educação Infantil: é hora de conhecer ou retornar para a escola

Na volta às atividades presenciais de 2022, os professores de Educação Infantil receberão bebês e crianças com diferentes relações com o ambiente educacional. Alguns nunca frequentaram; outros, devido à pandemia, estão há muito tempo sem ir à escola e há também os que mudaram de instituição. Todas essas situações devem ser levadas em consideração na hora de planejar a recepção e o acolhimento dos pequenos.

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Assim como todos os processos pedagógicos, a adaptação das crianças não envolve regras restritas, pois precisa ser pensada de acordo com cada contexto. É o que defende Maira Tangerino, fundadora da plataforma Educação Infantil em REDE e coordenadora de projetos educacionais na Foreducation EdTech, parceira do Google. “É uma ação gradual em que a criança conhece outro espaço, outras pessoas e vai se experimentando para se reconhecer nesse novo ambiente – que não é o familiar, com o qual ela já está acostumada”, explica a educadora.

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Muitos professores já estão acostumados com as atividades do período de adaptação. No entanto, é necessário considerar as especificidades do momento atual: tivemos quase dois anos de suspensão das atividades presenciais e será uma retomada com muitas inseguranças em relação à covid-19. Por isso, o primeiro passo da escola deve ser estabelecer os protocolos de biossegurança para que professores, funcionários e famílias se sintam seguros. Afinal, isso irá colaborar com o bem-estar dos pequenos. 

Alinhamento prévio com as famílias e o primeiro dia de volta

Além de comunicar quais regras devem ser seguidas, é importante ouvir os responsáveis e acolher as dúvidas. “Minha concepção de acolhimento começa com os pais. Eu sempre explico como vai ser a recepção, peço para conversarem com as crianças e falarem sobre o espaço em que vão ficar e sobre mim [a professora]. Gosto que levem os pequenos à reunião para já conheçam a equipe”, relata Fernanda Alves da Silva, professora na Escola Pública Municipal Martins Pena, em Guarulhos (SP).

A educadora conta que, desde 2019, mantém grupos de WhatsApp com os responsáveis e pede que eles mostrem as fotos das professoras para que as crianças se familiarizem com elas. Desse modo, a transição entre o ambiente familiar e escolar se torna mais tranquila.

Em muitas creches e escolas, uma ação comum da semana de recepção era a de ter a presença das famílias na sala de referência e sua participação em uma série de atividades. Infelizmente, devido aos cuidados que ainda precisam ser tomados neste momento, não é aconselhável reunir muitos adultos em uma sala fechada. Por isso, desde que autorizado pelas regras do município e do estado, os professores podem planejar atividades rápidas com as famílias em ambientes externos.

Preparando espaços convidativos e seguros

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Na Creche Municipal João Eugênio, no Recife (PE), a volta será escalonada. Dessa forma, cada turma retorna em um dia e toda a equipe se envolve nesse acolhimento inicial. “Primeiro pedimos que os responsáveis fiquem dentro ou próximo da escola. Depois que venham buscar em 2 horas até que chega o dia em que [deixam as crianças e] vão embora. Nesse processo, sabem que têm de ficar com o celular por perto porque podem ser chamados antes do horário oficial da saída”, conta Mirtes Ramos, vencedora do Prêmio Educador Nota 10 em 2020 e professora na instituição.

Para ajudar a amenizar o desconforto e a desconfiança, uma dica de Mirtes é solicitar que as famílias enviem um objeto transicional, que pode ser um brinquedo, um pano ou qualquer outro com o qual a criança tenha afeto. “Também gosto de tirar fotos das crianças na sala de referência e colá-las na altura da visão para elas também se reconhecerem ali, verem que o espaço é delas”, conta Mirtes.

Planejamento das primeiras semanas

Nesse início, a especialista Maira Tangerino chama atenção para o cuidado em não planejar muito antes de conhecer a turma. “É legal promover um espaço que tenha uma oferta generosa de brinquedos e experiências variadas para perceber os gostos da criança. Muitas vezes, ela ainda não sabe nomear [suas preferências], mas quando oferecemos uma variedade de propostas, ela vai no que gosta”, explica.

Por isso, alguns cuidados essenciais que os professores precisam ter seleção: colocar os brinquedos e livros ao alcance dos pequenos, assim não será preciso pedir para um adulto pegar; não separar objetos para meninas e para meninos; organizar atividades em grandes e pequenos grupos e individuais; e dividir o tempo entre momentos livres e momentos dirigidos pelo professor. Desse modo, será possível perceber as preferências e interesses de cada criança.

A professora Fernanda, que já trabalhou com turmas de 3 e 4 anos, conta que nessa faixa o acolhimento e período de adaptação deve ser feito da mesma forma que com os mais novos. A diferença está em como irão expressar o que sentem. “Com as crianças pequenas consigo ter um retorno mais rápido e, consequentemente, respondê-las mais rápido. Ela fala, ‘eu não quero ficar aqui, quero minha mãe’. Já no berçário, ela chora, muda o comportamento e nem sempre você entende o que exatamente está acontecendo”, explica.

Nesses casos, é preciso investir em atividades que conectem o pequeno àquele espaço e momento. Interação com os colegas, contato com a natureza, músicas e brincadeiras que envolvam bastante o corpo são alguns exemplos de caminhos possíveis.

Como estabelecer a rotina das crianças

Na Educação Infantil, o cuidar e o educar estão interligados. Os momentos de alimentação e higiene oferecem boas oportunidades para garantir os Direitos de Aprendizagem. Por isso, a rotina deve ser pensada com intencionalidade pedagógica. Por exemplo, a troca de fraldas, além de uma ação necessária para a manutenção da saúde e bem-estar do bebê, pode ser o momento de trabalhar o objetivo de desenvolvimento e aprendizagem previsto na Base Nacional Comum Curricular: “Reconhecer seu corpo e expressar suas sensações em momentos de alimentação, higiene, brincadeira e descanso.”

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Pensando nisso, os professores e gestores devem explicar para os responsáveis, na primeira reunião, quais momentos de cuidado compõem a rotina da escola, seu horário e quem é o responsável. Além disso, também explicar quais materiais a família deve enviar – por exemplo, fraldas, toalha, roupa reserva.

Enquanto ainda for necessário, todos os adultos e crianças acima de dois anos devem ser orientados a usar máscaras bem ajustadas. Por isso, enviar uma quantidade suficiente delas e organizar momentos para que as crianças realizem a troca também devem fazer parte da rotina. Abraços e beijos devem ser evitados, mas mesmo assim é possível estabelecer uma relação de proximidade – saiba mais como garantir a afetividade sem o contato.

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Maira explica que, assim como a construção do sentido da função social da escola varia de criança para criança, isso também acontece com os responsáveis. “Se a família nunca teve um filho na escola ou na creche, a relação pode ser carregada de mais insegurança. A gestão pode olhar para isso e pensar se vale a pena colocar na mesma sala muitos pais que nunca tiveram filhos em escolas, o que poderá gerar uma demanda maior de dúvidas para um mesmo professor”, aconselha ela.

Outras sugestões para iniciar o ano com as crianças

As educadoras apontam cinco dicas para conduzir a adaptação que respeite toda a turma. Confira:

  1. Peça que os pais apresentem o espaço da escola para os filhos. Antes do início das atividades, possibilite que as famílias levem previamente as crianças e apresentem o ambiente para elas.
  2. Nada de mentiras “inocentes”. Quando uma criança chora ou se recusa a se distanciar do responsável, dizer algo como “só vou ali no banheiro e já volto” apenas enfraquece a relação de confiança da criança com os adultos. Oriente as famílias a conversarem sobre isso antes de levar o filho à escola.
  3. Cumpra combinados. Se os responsáveis dizem que irão retornar para buscar filho em determinado horário ou depois de certa atividade, é importante que isso seja cumprido para que o pequeno confie neles e entenda que existe uma rotina a ser cumprida. Em contrapartida, se o professor se compromete a enviar uma mensagem no meio do dia contando para os pais como a criança está, deve cumprir para que eles confiem na escola.
  4. Não compare as crianças. Assim como os adultos, há pequenos introvertidos e extrovertidos. Dizer à família que a criança é a mais quieta que todas, a mais agitada do grupo ou que não se comporta como outra não é uma boa atitude. Caso seja necessário, comente sobre ela com base em seu próprio comportamento. Por exemplo: “Semana passada ele estava interagindo bem com todos e nos últimos dias está muito quieto”.

Entenda que o momento não é fácil. Se separar dos pais (principalmente da mãe), da família e do espaço da casa é um marco muito importante no desenvolvimento humano, mas também um desafio. Algumas crianças podem demorar semanas para se adaptar, o que exige paciência de todos os adultos envolvidos e dos colegas de turma, que podem ser convidados para acolher e brincar com quem está triste.

 

Fonte: https://novaescola.org.br/

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